Histórias de África Bahia

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Castro Alves, uma breve história.

Castro Alves aos 20 anos


Fiched baseado no livro de Alberto Costa e Silva: Castro Alves, um poeta sempre jovem [1]

14 de março de 1847

9) Cecéu: Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras próxima a Nossa Senhora de Conceição de Curralinho, hoje Castro Alves, Bahia. Os pais, o médico Antônio José Alves e Clélia Brasília da Silva Castro. O avô paterno, Antônio José, era um comerciante português, natural do Minho. "Da avó [paterna], igualmente solteira, não se guardou sequer o nome". O avô materno, o coronel sertanejo José Antônio da Silva Castro foi um grande senhor de terras. A avó materna, Ana Viegas, era uma cigana espanhola. Na região de Curralinho "prevaleciam os modos de vida dos pioneiros, os rapazes raptavam as moças, os padres tinham amásias e as disputas de coração, honra, de dinheiro e de poder se resolviam frequentemente a punhal e a bala". Sua ama de leite Leopoldina, escrava de seu pai, foi mãe de Gregório, seu pajem que o acompanhou durante a vida.

1852 (4 anos)
11) Após uma rápida passagem por Muritiba, a família se fixou em São Félix, onde Castro Alves iniciou seus estudos com um professor particular.

Casa onde nasceu o poeta, sede da antiga fazenda Cabaceiras.


1854 (6 anos)
A família, Dr. Alves, D. Clélia, três rapazes (Castro Alves, José Antônio e Guilherme), e uma menina (Elisa), chegam à Salvador, capital da província, onde duas novas irmãs (Adelaide e Amélia), juntam-se ao grupo. Ainda em Cabaceiras, um segundo irmão (João), veio a falecer poucos dias após o nascimento. Alguns anos mais tarde, em 1864, José Antônio, outro irmão, acometido de sucessivas crises depressivas, se suicidava com uma ingestão excessiva de remédios. Guilherme faleceu em 1877, dois anos após a publicação de seu livro de poemas Raios sem luz, editado sob o pseudônimo de D'alva Xavier. Amélia também escrevia versos.

Em Salvador, residiram à rua do Rosário de João Pereira, 1, e à rua do Passo, 47, onde o Dr. Alves atendia escravos. (Jornal da Bahia, 12/4/1855). Dr. Alves lecionou na faculdade de medicina e como médico alcançou enorme prestígio profissional. "Homem culto e de sensibilidade artística, se tornaria dono de uma das melhores coleções de pintura de Salvador". Participou da criação da Sociedade de Belas Artes e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).  Foi homenageado com a Ordem da Rosa e, mais tarde, do Cruzeiro. A primeira foi criada para celebrar o casamento de d. Pedro I com d. Leopoldina; a segunda, após a independência, 1822.

Quinta da Boa Vista, em 2015


1856 (9 anos)
14) O Dr. Alves adquire uma chácara nos arrabaldes da cidade, em Brotas, a roça ou quinta da Boa Vista. Antes da independência, o casarão pertencera ao português, também do Minho, Manuel José Machado, “grande contrabandista e mercador de escravos, senhor impiedoso, estuprador de negrinhas e dono de um considerável número de filhos mulatos”. Conhecido como o Machado da Boa Vista, era tido como um sujeito de grande influência na cidade. Colaborou com a construção da Praça do Comércio e do Teatro São João, do qual foi diretor. Seu corpo encontra-se na Santa Casa da Misericórdia, que também herdou boa parte de seus bens. Foi enterrado com o “hábito de Cristo, que em 1808 lhe conferira o príncipe regente d. João”. Quando chegou à casa, Castro Alves ainda encontrou os diferentes troncos de supliciar escravos, pés, mãos e pescoço. A torre servia de mirante, dela se avistava o mar. Ali se postava um escravo que tocava um sino anunciando a triste chegada de mais um navio negreiro.

181) “O menino Antônio ingressa no Colégio São João”

1858 (11 anos)
Por conta da má saúde de d. Clélia, a família Alves foi morar na quinta Boa Vista, um belo palacete “no subúrbio”, com grandes árvores (cajueiros, mangueiras, jaqueiras, cajazeiras) e ares de interior. No terreno, havia ainda uma fonte com carranca e redoma de azulejo e senzala. A partir de 1874, o casarão viria a ser o hospital de alienados Asilo São João de Deus. Mais tarde, Hospital Juliano Moreira.

16) "Antônio tinha 11 anos quando entrou para o Ginásio Baiano, do famoso educador [abolicionista] Abílio César Borges, futuro barão de Macaúbas e futura personagem de Raul Pompéia", o dr. Aristarco, em O Ateneu. Havia estudado ainda em outro colégio, o São João ou Sebrāo, do diretor Franciso Pereira de Almeida Sebrão. Mais tarde, a nova sede do Ginásio Baiano (visitada por d. Pedro II, em 1859) viria ocupar um palacete nos Barris, que pertencia a outro grande traficante de escravos sediado em Porto Novo, na costa africana, Domingos José Martins, "filho do revolucionário pernambucano de mesmo nome, fuzilado pelos portugueses após o malogro do movimento de 1817."

17) No Ginásio Baiano, conheceu Rui Barbosa. Os dois foram grandes amigos. Lá, aprendeu latim, francês e inglês, e a postar a voz, sobre o palanque, nos saraus literários promovidos pelo professor Abílio; também "traduziu em versos uma ode de Horácio" e alguns poemas de Victor Hugo.

d. Clélia Brasília, mãe do poeta.


1859 (12 anos)
19) Sua mãe, d. Clélia, aos 34 anos, morre de tuberculose. A família passa a residir à rua do Sodré, hoje bairro Dois de Julho. Seu pai, o dr. Alves, também tivera problemas pulmonares na juventude. Na época, ignorava-se que o mal fosse causado por um bacilo.

1860 (13 anos)
181) “9 de setembro: Antônio recita seus primeiros versos, em festa no Ginásio Baiano.

1862 (15 anos)
Em 24 de janeiro, o dr. Alves casa-se com uma vizinha, d. Maria Ramos Guimarães, viúva do português Francisco Lopes Guimarães, proprietário de navios negreiros (Queri, Maria e Chinfrim). Este foi credor do filho de um dos maiores traficantes do século XIX, o Chachá Francisco Felix de Souza, pai de Antônio Félix de Souza. A família Alves muda-se para o Solar do Sodré.

Pintura de Franz Post, entre 1653 e 1657


20) O tráfico era um grande negócio. O lucro de uma travessia chegava a 25%. Um rendimento acima de qualquer outro na época. O escravo era vendido pelo triplo do preço que era adquirido na costa africana. Os altos custos incluíam o aluguel do navio; o seguro; o soldo do capitão, comandantes e tripulação (que era, em média, o dobro da tripulação utilizada para qualquer outro tipo de comércio); as taxas portuárias; o imposto por escravo; os presentes dos reis e representantes; as despesas com água e alimentação; e o suborno aos funcionários brasileiros para que fizessem vistas grossas aos desembarques "proibidos". O tráfico negreiro "era o motor da cidade". O “primeiro de todos os itens da pauta de importação da Bahia” (23).

25) Em 25 de janeiro, Castro Alves e seu irmão José Antônio embarcam para estudar direito no Recife. "Era leitor de românticos europeus - Vigny, Espronceda, Heine, Musset, Lamartine, Quinet" - além de Byron e Vitor Hugo. "Conhecia os versos de José Bonifácio, o Moço, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Pedro Luís, Fagundes Varela, Soares de Passos e Tomás Ribeiro".

1863 (16 anos)
Em março, mês que completaria seus 16 anos, “submete-se a prova para ingresso na faculdade de direito e é reprovado”. No mesmo mês, foi ao Teatro Santa Isabel, assistir a peça Dalila, de Octave Feuillet. Lá conheceu a atriz Eugênia Infante Câmara, 10 anos mais velha, com quem viveria um arrebatado romance juvenil. Eugênia era uma atriz portuguesa e também publicara um livro em versos, "Esboços poéticos, reeditado em Fortaleza com novo título: Segredos d'alma."

No Teatro Santa Isabel,

Castro Alves improvisa homenageando sua amada Eugênia Câmara


28) "Segundo o testemunho de seu grande amigo Luís Cornélio dos Santos, ele teria tido, em meados de 1863, uma hemoptise (golfada de sangue causada pela tosse tísica).

29) Em maio, um jornal de acadêmicos de direito, A Primavera, publicou "A Canção do africano". Versos abolicionistas, em redondilha maior, à moda dos cantadores da época.

31) "Os escravos de Castro Alves amam-se entre si com fidelidade e constância, e são visceralmente apegados aos filhos." (2006, p.31). "O escravo será sempre, em Castro Alves, devotado aos seus, nobre, altivo, valente e reto. Na maioria dos casos, um resistente, um inconformado, um vingador, um rebelde."

1864 (17 anos)
34) Castro Alves perde o irmão José Antônio, que se suicida em Curralinho. Matricula-se na Faculdade de Direito onde conhece o jurista e também poeta sergipano Tobias Barreto, oito anos mais velho. Com alguns colegas lançou o jornal de estudantes O Futuro. Nesse período também escreveu o poema "Mocidade e morte", que se chamara inicialmente "O tísico", algo prenunciador do que lhe aconteceria.

Em outubro, já quase findando o ano acadêmico, às pressas, volta para Salvador, visita os amigos e conhece o poeta Fagundes Varela, que se deu por ali após o naufrágio da embarcação que o levava para estudar também no Recife. Castro Alves perde seu primeiro ano na faculdade por faltas.

1865 (18 anos)
40) Castro Alves matricula-se novamente no primeiro ano de direito, no Recife. Sua chegada, no mês de março, acompanhado por Fagundes Varela e um escravo (Gregório) é notícia no Jornal do Recife (64).  Começa a juntar os primeiros poemas do livro Os escravos. Em agosto daquele ano, no salão de honra da faculdade declama o poema "O Século" que, assim como "Adeus, meu canto" era de temática engajada, liberal, influenciada pelas ideias socialistas que chegavam da Europa e que o tornaria famoso na cidade. O poeta acreditava que a poesia deveria "ser o arauto da liberdade [...] e o brado ardente contra os usurpadores dos direitos do povo".

47) Nesse período, alistou-se no Batalhão Acadêmico de Voluntários para a Guerra do Paraguai. Mas não partiu. Sua participação reduziu-se à criação do poema "Aos estudantes voluntários".

182) Em dezembro, “volta a Salvador, com Fagundes Varela.”

1866 (19 anos)
52) Aos 48 anos, no dia 23 de janeiro, morre o Dr. Alves, "vítima de um coração cansado [...]  fortemente endividado." Investiu o que tinha e o que não tinha na esperança de transformar a quinta da Boa Vista em hospital. Na época, de familiares, havia Francisco, filho de d. Maria; Guilherme, com 14 anos; Elisa, com 12; Adelaide, com 11; e Amélia, com 9 anos.

(57) De volta ao Recife, passa a morar no Barro, um subúrbio, agora amasiado com d. Eugênia Câmara (a filha desta, Emília Augusta, uma criada e, talvez, uma escrava; além de Gregório, o pajem do poeta (p.63), filho da ama Leopoldina que, como escravo, é citado no inventário de d. Clélia Brasília).

45) Juntamente com Rui Barbosa e outros companheiros, funda uma sociedade abolicionista. Neste mesmo ano se desentende com Tobias Barreto, por conta de seus protagonismos amorosos que, na época, disputavam o mesmo palco. Enquanto Castro Alves tecia odes a Eugênia, Tobias Barreto enaltecia Adelaide Amaral, também atriz da mesma companhia. Castro Alves lança um primeiro número da revista Luz.



1867 (20 anos)
67) Castro Alves finaliza o drama Gonzaga ou A revolução de Minas. Carlota, personagem central, assim como a Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães ou Lúcia, em Rei Negro, de Coelho Neto, aborda o problema da escravidão a partir da “lógica do escravismo racista”: o público branco apiedava-se pela personagem escrava de pele clara contra o sistema escravista.

70) O estudante de direito não se matricula no terceiro ano da faculdade e, em maio, segue para Salvador onde pretende estrear sua peça. Ele, a atriz e a menina, filha de Eugênia, foram morar no casarão da quinta da Boa Vista. O poeta, famoso, se apresenta em várias oportunidades. A peça estreou, com grande sucesso, no dia 7 de setembro. Em novembro, em memória do casarão, escreve "A Boa Vista".

1868 (21 anos)
83) Levando consigo duas cartas de apresentação do político Joaquim Jerônimo Fernandes da Cunha, Castro Alves embarca para o Rio. Uma carta para José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, a outra para José de Alencar, com quem esteve numa tarde de poesias. Alencar o apresentaria ao grande público, em carta aberta, no Correio Mercantil de 22 de fevereiro. Carta que fora também destinada a Machado de Assis, que visita o poeta. Os dois dividem outra tarde literária. Em Março, da sacada do Diário do Rio de Janeiro, recita "Pesadelo de Humaitá" (no contexto da Guerra contra o Paraguai ou da Tríplice Aliança (1864-1870), Humaitá era o nome da fortificação que controlava o acesso por via fluvial à capital, Assunção).

87) No mesmo mês, o casal, na companhia de Rui Barbosa, seguem de navio para São Paulo. A cidade, com cerca de 30 mil habitantes, se multiplicava com os lucros das lavouras escravistas de café. Em Março, o poeta se matricula no terceiro ano da Faculdade de Direito, localizada no antigo convento de São Francisco, que abrigou, antes de Castro Alves, Álvares de Azevedo e Fagundes Varela. Na época, o modelo a ser seguido era Byron, "e se cultivavam o tédio, ou melhor, o spleen, e o desvario." Agora, a vez de Victor Hugo e, ao invés de tédio, abolição e República. Entre os sequazes, o professor José Bonifácio, o Moço, Ferreira Menezes, Joaquim Nabuco (Quincas, o Belo), Rodrigo Alves, Carlos Ferreira, Afonso Pena, Salvador de Mendonça, Basílio Machado e Rui Barbosa. Dizia Nabuco, "nunca ter visto o colega 'dar um momento de atenção às realidades da vida, nem às ambições da mocidade" (p.91).

Nesse período, intensificou a produção de poemas para Os escravos, escreveu "Vozes da África", "O Navio Negreiro", e andava ocupado com a publicação de "Gonzaga".

Navio Negreiro, por Rugendas. Publicado em Paris, 1835.


97) No dia 7 de setembro, recitou o poema "Tragédia no mar", mais tarde renomado "O Navio Negreiro". O tráfico oficial já deixara de existir desde 1850 (Lei Eusébio de Queirós que ratificava a proibição do tráfico transoceânico, matéria de outra lei já sancionada, por D. Pedro II, em 7 de novembro de 1831, que não se fazia valer). Entretanto, ainda nesse período, década de 1850, o tráfico de cabotagem, trazendo os negros das províncias do norte para as lavouras de café no sudeste, continuava a pleno vapor. A escravidão perdurava ainda com força no país e o contrabando, não pouca vezes, derramava suas presas miseráveis em praias ermas, refúgio de traficantes. Alguns poemas temáticos da época: "Les nègres et les marionnettes", de Pierre-Jean de Béranger, "The Slave Ship", de John Greenleaf Whittier, e "Das Sklavenschiff", de Heinrich Heine.

121) Simum: vento que sopra do Saara para o Norte da África. Harmatã, do deserto para o sudoeste africano.

124) O monte Ararat e "o anátema de Noé contra Cam, que faltara com respeito à ebriedade e à nudez do pai". (...) segundo o texto bíblico, "os seus descendentes seriam escravos - devia recair sobre Canaã, e não, sobre Cam ou seu outro filho, Cuxe, de quem proviriam os negros, primeiro os islamitas e, depois, os cristãos a usaram para justificar, (...), a escravização dos africanos".

130) Em 25 de outubro, Gonzaga estreia em São Paulo, no Teatro São José. Ocorreram apenas duas apresentações, "não havia público para mais". A relação com Eugênia Câmara se desfazia e o inspirou à lírica de "Boa noite" e "O adeus de Teresa". "Foi Eugênia que (...) o mandou embora e lhe atirou os livros e os demais pertences na rua." (...) "Castro Alves foi morar com Rui Barbosa, numa república de estudantes na ladeira da Conceição." É aprovado nos exames da faculdade de direito.

135) Foi no dia 11 de novembro, na altura do Brás, que Castro Alves alvejara o próprio calcanhar esquerdo ao saltar uma vala. Foi atendido pelo presidente da província, Cândido Borges Monteiro, o Barão de Itaúna, que era cirurgião, e o Dr. Lopes dos Anjos. A tuberculose recrudesceu, as hemoptises voltaram.

1869 (22 anos)
140) Na esperança de bons médicos, em 21 de maio chega ao Rio. (...) "só recorriam aos hospitais os que não tinham família o ou não podiam manter-se, os solitários e os desamparados." Na casa do amigo Luís Cornélio, no Rio, os Drs. Mateus de Andrade e Andrade Pertence amputaram "o pé pelo terço inferior da tíbia".  "Castro Alves enfrentou a operação sem anestesia, pois o estado de seus pulmões tornava perigoso o uso do clorofórmio."

144) "Em 25 de novembro, embarcou para a Bahia, acompanhado do cunhado Francisco Lopes Guimarães Junior". No dia seguinte, o Jornal da Tarde publicou “Adeus”.

Antiga Casa da Fazenda Curralinho, de d. Ana Constança.


1870 (23 anos)
152) A tuberculose se agravava. Em fevereiro, a conselho dos médicos, viajou para Curralinho. "A família Alves já não era dona da fazenda Cabaceira, que o Dr. Alves vendera, [juntamente com uma parte da fazenda Paraguassuzinho], para comprar a quinta da Boa Vista." Castro Alves se instalou no sobrado de d. Constância, irmã de seu avô e prima de sua mãe. No sótão de uma casa vizinha fez refúgio. Leu Humbolt e acompanhou os últimos meses da Guerra do Paraguai. Sobre o conflito, escreveu cinco poemas: dois da época dos Voluntários da Pátria; um em favor dos órfãos de guerra “Quem dá aos pobres empresta a Deus”; “O Pesadelo de Humaitá”; "e na passagem final de 'Dous de Julho, une-se a batalha final de Riachuelo à do Cabrito." Foram cinco meses de Curralinho.

157) Em julho, segue para a fazenda Santa Isabel, em Rosário do Orobó, hoje Itaberaba. Em setembro, regressa à Salvador, estabelece-se no Solar do Sodré. Em outubro, lança Espumas flutuantes, com 54 poemas e 218 páginas. Na esperança de voltar aos estudos, se matriculara no quarto ano da Faculdade de Direito de São Paulo.

O casarão da Boa Vista é vendido para o governo da província, "a fim de que se instalasse um asilo de loucos", o asilo São João, mais tarde, em 1936, Hospital Juliano Moreira (p.53). Nele, internada, faleceu Leonídia Fraga, um antigo amor das idas à Curralinho (p.156).

158) Em 14 de outubro, fez presença em uma noite de festas em benefício do Grêmio Literário. No dia 22, no Solar do Sodré, promoveu seu primeiro sarau literário. Recitou "A cachoeira de Paulo Afonso", a triste saga de um casal de escravos.

164) Castro Alves escreveu poemas para serem decorados. "Tudo ajuda a memorização: os estribilhos, as repetições, os refrãos, a insistência na redondilha maior, as rimas agudas, o mesmo verso a terminar todas as estrofes, ou o último verso de uma quadra ou uma quintilha a repertir-se como o primeiro da seguinte."

167) Uma possível filha: Virgínia Hilda de Castro Alves, filha de Virgínia Hugo Coutinho de Castro, viúva, vizinha no Sodré. A relação teria acontecido no período entre seu retorno de Curralinho e sua morte.

1871 (24 anos)
170) Ano de sua morte. Em 10 de fevereiro, Castro Alves se apresenta na Associação Comercial da Bahia. Em ato beneficente em favor das crianças vítimas da guerra franco-prussiana. Foi sua última apresentação em público. No dia 30 de abril publicou, no O abolicionista, uma peça em prosa, pedindo donativos para a Sociedade Abolicionista 7 de Setembro. Também "saiu em defesa da participação da mulher na política e no voto feminino".

171) Lei do Ventre Livre: "O visconde do Rio Branco apresentara à Câmara o projeto sobre a Reforma do Elemento Servil, no qual se previa que os filhos das escravas nasceriam livres, se criava um fundo de emancipação, se reconhecia o direito do escravo de formar um pecúlio para comprar a liberdade e se assegurava o seu direito à alforria, se proibia a separação dos cônjuges e se libertavam os escravos que pertenciam ao Estado e os de usufruto da Coroa”.

Em 22 de junho foi a última vez ao teatro. Morreu em 6 de julho de 1871, às 15h30. Foi poeta lírico e também público, com grande número de poemas sociais (p.175). Lembrando que, no período, eram poucos os políticos e intelectuais que se opunham à escravidão, a exemplo de Silveira da Mota, Tavares Bastos, Manoel Francisco Corrêa, Perdigão Malheiro, o visconde de Jequitinhonha, o marquês de São Vicente, Nabuco de Araújo e Rui Barbosa (p.179).




[1] COSTA E SILVA, Alberto da. Castro Alves: um poeta sempre jovem. - São Paulo, Cia das Letras, 2006.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Bella Miquelina

dois brigues, tipo Bella Miquelinacom dois, por vezes três mastros
Tráfico de africanos, tensões, medos e luta por liberdade nas águas da Baía de Todos-os-Santos em 1848 [1], de Dale T. Graden e Paulo Cesar Oliveira de Jesus, é um dos dez belos textos, compostos à luz da nossa atual historiografia baiana, que fazem parte do volume Barganha e Querelas da Escravidão: Tráfico, Alforria e Liberdade, séculos XVIII & XIX, organizado pelas professoras Lisa Earl Castillo, Gabriela dos Reis Sampaio e Wlamyra Albuquerque.
O mundo atlântico e o tráfico. Um mundo de gente simples escravizada, de terríveis monstros negreiros, de ricos e cruéis traficantes e beneficiários de todas as classes e tons de pele que agiam confiantes de estarem certos como que inconscientes de suas loucuras. E procurando esclarecer questão tão ampla, o tráfico que concebíamos e avidamente sustentávamos, tenho investido e me concentrado na análise crítica de episódios particulares e significativos, como que partindo do pequeno para conhecer o grande, a exemplo do relato de Dale T. Graden e Paulo Cesar Oliveira de Jesus sobre o apresamento do navio negreiro Bella Miquelina, em 1848, em águas provinciais, pelo cruzador britânico Grecian, muitos anos depois de promulgada a lei de 1831, que proibia o tráfico atlântico, na tentativa de explicar o inexplicável que cegava homens “probos” capazes de tamanha atrocidade.
Negreiros, dos mais variados modelos e tamanhos, mal disfarçados de legalidade; armadores e traficantes capazes de grandes e pequenos investimentos; capitães e marinheiros, desdenhosos da lei; e escravos diversos, várias etnias, todas as idades, alguns conduzindo seus próprios escravos, e todos "atentos às contradições do sistema", são alguns desses personagens que também me interessam por terem suas micros trajetórias de vidas relacionadas com o nefasto e grandioso drama da escravidão. A partir da história de alguns acontecimentos aparentemente isolados, mas representativos, a historia moderna procura conhecer um pouco desse mundo que construímos e o legado fatídico que nos revela um pouco daquilo que somos hoje.
o triste acondicionamento da "carga"
Bella Miquelina foi "uma embarcação de grande porte que fez várias viagens entre a África e a Bahia antes de ser apreendida pelos ingleses nas águas da Baía de Todos os Santos", em abril de 1848. Tempos em que traficantes ousados "realizavam contravenções escancaradas" em conivência com as autoridades brasileiras e a própria sociedade que se beneficiava com o tráfico. Interessante aqui também é o caso do serra-leonês John Freedman, escravo condutor de barcas no porto de Salvador que soube se aproveitar das indeterminações legislativas em pleno momento de captura e tensão e pediu asilo à nau de guerra inglesa que escoltava o tumbeiro apreendido.
O Bella Miquelina foi apreendido, pelo cruzador de sua Majestade britânica Grecian, quando retornava da África com cerca de 500 cativos miseravelmente comprimidos nos porões. Foi conduzido ao porto de Salvador numa situação de emergência. Não que o porto baiano fosse um lugar seguro para sua ancoragem e socorro, muito pelo contrário, a estadia ali não deveria se estender por muito tempo, havia o risco da “carga” ser saqueada. Porém, a nau combalida, em final de viagem, se encontrava extremamente necessitada de mantimentos e água, e precisava ser abastecida de imediato. Já ancorada no porto, uma breve investida surpresa de sessenta homens em duas barcas tentou recuperar o tumbeiro do controle britânico, mas foram rechaçados pelos marinheiros de bordo e também pela aproximação de uma fragata brasileira Constituição, evitando destino incerto para aqueles pobres traficados. No dia seguinte, um africano remou até o Grecian, se dizendo ser John Freedman, “súdito de sua majestade britânica vivendo ilegalmente escravizado no Brasil, e solicitou proteção, no que foi prontamente atendido”.
Sob a pressão indignada do povo baiano, vendo sua soberania afrontada, Manoel Messias de Leão, então presidente da província da Bahia, reclamou às autoridades britânicas a entrega da embarcação, mas seu capitão, L. S. Tindal, o comandante do todo poderoso Grecian, não deu ouvidos e, tão logo reabasteceu, partiu em direção ao Rio de Janeiro levando consigo o escravo oportunista e o todo prenhe de dores e tristezas Bella Miquelina. Naqueles tempos, apesar de proibido, era comum o vai e vem dos tumbeiros nas costas da província baiana. Os traficantes agiam seguros de impunidade. Por outro lado, havia um temor crescente na cidade causado pelo número cada vez maior de africanos circulando. O risco de tensões sociais, os negros somados eram como uma grande sombra de violenta rebelião que pairava sobre a cidade, e a possibilidade de introdução de novas doenças aumentavam com a chegada de cada tumbeiro abarrotado.
A tripulação do Bella Miquelina era composta por 29 pessoas. Eles faziam um verdadeiro bate-e-volta Província da Bahia/Costa Ocidental da África/Província da Bahia. Tinham que ser rápidos, isso ajudaria a diminuir os custos da viagem e a possibilidade de serem pegos por alguma embarcação do esquadrão antitráfico britânico. Mas toda essa rapidez levava em torno de dois meses, o que resultava no próprio sacrifício da “carga”. Em média, 10% dos negros transportados não chegavam à Bahia. Em geral, os barcos dedicados ao comércio do tráfico agiam em dupla cooperativada: um primeiro “navio deixava o porto de Salvador com produtos legalmente comercializáveis na costa africana e, camuflado em meio a estes, também levava mantimentos e equipamentos para realizar o transporte dos africanos. Dias depois, o verdadeiro navio negreiro partia em lastro para o litoral da África, e em determinado local recebia todo o aparato necessário ao transporte de cativos”.
Seguir viagem para o Rio de Janeiro após apreendido o barco contraventor era o procedimento básico protocolar da esquadra inglesa. Mas o mau tempo e as condições precárias em que se encontrava o Bella Miquelina alteraram os planos de navegação obrigando que o barco fosse conduzido ao porto de Salvador. No caminho, ainda sob forte tempestade marítima, comum àquela época do ano, as duas naus se separaram e o tumbeiro desprotegido da nave escolta chegou bem antes às águas tensas do ancoradouro baiano. A notícia logo se espalhou causando enorme comoção entre a população indignada, não pelas condições ultrajantes em que se encontravam aqueles miseráveis quinhentos africanos, mas por conta de verem a soberania de seu País sendo ultrajada pela arrogância inglesa. Desde 1845, após a aprovação pelo Parlamento britânico do Brasilian Slave Trade Act - Bill Abeerden, lei que proibia o tráfico transatlântico, que os ingleses desistiram das investidas diplomáticas e partiram para as vias de fato, ainda que os fatos ocorressem em território estrangeiro. A postura britânica exemplificada pela atuação do Grecian em águas brasileiras foi alvo de duras críticas daqueles que, de alguma forma, se beneficiavam do sistema escravista, a grande maioria dos baianos, e parte da imprensa que sustentava a continuidade da escravidão “defendendo que sua extinção só poderia ocorrer após uma série de preparativos, de forma a evitar prejuízos”.
Quanto aos negros escravizados a bordo do Bella Miquelina temos poucas informações. Segundo dados do Trans-Atlantic Slave Trade Database (TASTD), inicialmente o barco teria sido carregado no Golfo do Benim, Costa dos Escravos e, os sobreviventes, após longa sequência de infortúnios (o sequestro original, a marcha forçada até o local de embarque, a prisão à espera de destino ignorado, os porões completamente insalubres de comprimidas naus, a falta de alimentos, as doenças variadas e as tempestades em alto mar), foram finalmente libertados em Serra Leoa. Em meados do século XVIII, os navios negreiros “transportavam, em média, entre 1,5 e 2,5 africanos por toneladas”. “O Bella Miquelina, embarcação de 263 toneladas, refletia essa tendência ao ser abordada pelo cruzador britânico”. Nele, “possivelmente os traficados enfrentaram quarenta longos dias de confinamento sob as condições mais adversas”. Muitos deviam portar marcas e cicatrizes tribais. Cerca de 30% eram meninos e meninas.
Barganhas e Querelas da Escravidão

Esse é apenas um breve resumo de um dos dez capítulos escritos pelos membros do grupo de pesquisa Escravidão e Invenção de Liberdade, no segundo volume da série que tem como base o Programa de Pós-Graduação em História da Ufba. Os textos são acessíveis, reveladores, ricos em informações, fruto de pesquisa comprometida e apaixonada e, como se não bastasse, escritos quase como narrativas de aventura, o que ajuda a democratizar a literatura de academia. O primeiro volume, Escravidão e suas sombra [2], foi lançado em 2012. Vida longa a esse belo trabalho de resgate de nossa riqueza histórica esquecida sobre os escombros culturais da velha Bahia.




[1] Breve a partir de GRADEN, Dale T; e JESUS, Paulo Cesar Oliveira de, Tráfico de africanos, tensões, medos e luta por liberdade nas águas da Baía de Todos-os-Santos em 1848.  in: CASTILLO, Lisa Earl; SAMPAIO, Gabriela dos Reis; e ALBURQUEQUE, Wlamyra (Orgs.), Barganha e Querelas da Escravidão: Tráfico, Alforria e Liberdade, séculos XVIII & XIX, -- Salvador, EDUFBA, 2014.
[2] AZEVEDO, Elciene  e REIS, João José: Escravidão e suas Sombras. – Salvador, EDUFBA, 2012

domingo, 16 de novembro de 2014

A Força da Escravidão - Sidney Chalhoub

A revolta de 1852, a contra força da escravidão


Lei do cativeiro: o grande medo de 1852 

A lei do cativeiro, um decreto do governo imperial de janeiro de 1852, instituía o registro obrigatório de nascimento e óbito em todo o país: “determinava-se a realização de um recenseamento geral do império”. A iniciativa visava recolher informações sobre a população do país.

No caso dos recém-nascidos de condição livre, coletava-se: data, hora, lugar de nascimento, nome, sexo, nome dos pais (se legítimo), ou só da mãe.

No caso de crianças escravas, tudo igual, mas acrescentava-se o nome do proprietário, a cor do recém-nascido e seu estado civil: livre ou escravo.

Em boa parte do Império, houve motins. A população se levantou contra os registros, a exemplo de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Ceará e Minas Gerais; além de grande tensão e alerta geral terem sido criados em todo o país. Leis eram anunciadas pelos vigários durante as missas e grupos de amotinados vigiavam e impediam a leitura da lei do registro civil. Escrivães e juízes de paz se viram ameaçados. Assim a população procurava, por iniciativa própria, obstar o registro obrigatório de nascimento e óbito.

A causa dos motins segundo o ministro da justiça, Eusébio Queiroz, era de que havia um boato de que o registro só tinha por fim escravizar a gente de cor, chegando mesmo a apelidar o decreto de “Lei do cativeiro”.

Na época, o ministro dos Negócios do Império, o visconde de Mont’Alegre, chegou a dizer que havia, em todo o território nacional, muita gente de cor livre com medo de ser levada a escravidão, “pois eram negros que tinham sua vida pautada pela ameaça do cativeiro”. O objetivo dos revoltosos era evitar a vigência do registro civil; a estratégia, impedir a divulgação do decreto pelos párocos e a sua aplicação nos juízos de paz; o motivo, temor de serem escravizados.

Duas queixas prevaleciam entre os amotinados. A primeira era de que a finalidade dos registros seria cativar pessoas livres, a segunda, ficava por conta do ônus de pagarem a certidão ao escrivão de paz na ocasião dos óbitos. No primeiro caso, os amotinados acreditavam haver uma ligação clara entre o fim do tráfico africano de escravos, recentemente obtido por meio da aplicação da lei 1850, lei Eusébio de Queiróz, que proibia o tráfico para o Brasil, e o regulamento do registro civil. Talvez porque atribuíssem a extinção do tráfico apenas por conta da pressão inglesa, visto que os ingleses não deixavam mais entrar africanos, e por conta de que temiam o cativeiro de seus próprios filhos (pardos livres, jovens e adultos).

Assim, O presidente de Pernambuco, Victor d’Oliveira, interpretava sobre os eventos turbulentos que ocorriam na comarca de Pau d’Alho: “onde mais notavelmente se apresentou em massa a população clamando contra aquele decreto, por ela apelidado – Lei do cativeiro – espalhava-se, geralmente, que a lei mandava registrar os nascimentos para escravizar a gente de cor, que d’ora em diante nascesse”.

A força da escravidão, Sidney Chaloub [1]

O livro de Chaloub destaca como a força da escravidão tornava precária a experiência de liberdade de negros livres e pobres no Brasil oitocentista. Havia uma lógica social e política que produzia uma espécie de interdito [silêncio consensual] que tornava precária a condição do liberto. Delicadas eram as fronteiras entre o trabalho escravo e o trabalho livre, incertas, inseguras, alternadas. Várias eram as apropriações sociais que se desenrolavam entre as categorias de ‘escravo’ e ‘livre’, tais como ‘liberto’ (alforriado), ‘ingênuo’ (fruto de ventre livre), ‘africano livre’ (contrabandeado após a lei de 1831), ‘preto livre’ (não contrabandeado, nem escravo), ‘boçal’ (africano traficado e recém-chegado), ‘ladino’ (africano traficado há muito tempo no país), ‘africano’ e ‘crioulo’ (nascido no Brasil), revelando as estratégias e lógicas das experiências de sobrevivência dos sujeitos naquele período.

A precariedade da liberdade era uma constante para os negros no Brasil do século XIX. Eram frequentes histórias de pessoas livres presas por suspeição de que fossem escravas e de indivíduos que se declaravam livres, mas acabavam leiloados como escravos.

A Lei de 7 de novembro de 1831 já proibia o tráfico africano. A lei, além de declarar livres todos os escravos vindos de fora do império, também determinava penas contra os importadores e traficantes. Mas não foi isso que se viu. Nas duas décadas seguintes, sob um silêncio consensual geral, mais de 750 mil africanos entraram ilegalmente no país. “Os sentidos e a intrincada engenharia institucional e política necessária para permitir que autoridades e cidadãos ditos de bem fingissem não ver o que se passava diante de seus olhos”, perpetuavam o sofrimento dos negros. E assim manteve-se, durante longos anos, muita gente escravizada ao arrepio da lei. Lembrando que, no sudeste, uma nova onda, a expansão do café, reavivava o crime.

Tudo isso parecia justificar a história daqueles amotinados de 1852 por todo país e, especialmente, em Pau d’Alho, Pernambuco. Pretos e pardos pobres que reagiam contra a aplicação do censo, por desconfiança que seu desígnio fosse reduzi-los à escravidão.

O capítulo final é dedicado ao pensamento e as palavras do contemporâneo Machado de Assis, reproduzida a partir de sua obra Memórias póstumas de Brás Cubas. Nele, o autor revela a complexidade das vivências e reflexões de um homem dissimulado, anestesiado, como tanto outros que naqueles tempos buscavam sentido numa sociedade que parecia notória, justificável, vivendo suas vidas miúdas, ajustáveis, modelares, em meio a um mundo de ricos contrabandistas de africanos e senhores de gente ilegalmente reduzidas ao cativeiro.




Dez Capítulos: 
2. Escravismo
3. Sob o domínio da ilegalidade
4. Modos de Silenciar e não ver
5. Em 1850, a precisão de calar sobre 1831
6. O que os escravos sabiam
7. O que os ingleses viam
8. Que se cumpra a lei
9. Liberdade precária
10. Machado de Assis (arremate)



[1] CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista, 1 ed., --São Paulo, Cia da Letras, 2012.